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23.9.19

[Resenha] Mulheres que correm com os lobos :: Clarissa Pinkola Estés


Mulheres que correm com os lobos
Autor: Clarissa Pinkola Estés
Editora: Rocco
Páginas: 575
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Medo, depressão, fragilidade, bloqueio e falta de criatividade são sintomas cada vez mais frequentes entre as mulheres modernas, assoberbadas com o acúmulo de funções na família e na vida profissional. Esse problema, no entanto, não é recente, acredita a psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés. Ele veio junto com o desenvolvimento de uma cultura que transformou a mulher numa espécie de animal doméstico. Mulheres que correm com os lobos identifica a essência da alma feminina, sua psique instintiva mais profunda, com o arquétipo da mulher selvagem, e propõe o resgate desse passado longíquo, como forma de atingir verdadeira libertação.

Mulheres que correm com os lobos é um livro já relativamente antigo. Foi publicado originalmente em 1992. E neste ano, especificamente, vem gerando cada vez mais debates; muito em função, é claro, dos problemas sociais envolvendo, principalmente, as mulheres. Não obstante, todo o movimento feminista e busca por direitos iguais mundo afora.

E não poderia ser menos oportuno, já que a obra busca resgatar uma característica feminina há muito extirpada, reprimida por diversos poderes sociais ao longo da trajetória humana.

Trata-se do arquétipo da mulher selvagem. O aspecto instintivo da mulher. Ora, selvagem neste contexto, como explicita a autora, não concerne à distorção que a palavra sofreu; hoje, também entendida como algo violento, opressor. O selvagem aqui é tratado substancialmente como aquele que é parte inerente da natureza, que vive em harmonia com o primitivo, com as raízes evolutivas de sua espécie. Até por isso o termo "arquétipo". 

Este conceito foi elaborado entre o final do século XIX e meados do século XX pelo então psicanalista Carl Gustav Jung, que por muito tempo fora aluno de Freud (criador da psicanálise - pode alguém não saber disso? -) e recebendo deste, reconhecendo suas capacidades e eloquência, o título honorário de "príncipe da psicanálise"; aquele que seria o responsável por dar continuidade à teoria após sua morte. Porém, depois de algum tempo de pesquisas e debates, discordâncias teóricas fizeram com que se separassem e Jung então, viria a criar sua própria teoria: a psicologia analítica. 

Uma das principais discordâncias entre os dois reside no fato de que, diferentemente de Freud, Jung acreditava na existência de um inconsciente coletivo, além daquele individual tratado pelo pai da psicanálise. 

O arquétipo faz parte desse inconsciente coletivo. São conteúdos inconscientes que remetem a situações mitológicas pertencentes a toda humanidade e sua história. Jung elabora sua ideia a partir de estudos acerca dos mitos que foram contados ao longo da existência humana.

Sem mais delongas, até porquê o tema aqui não é teoria psicológica, é através desses mitos que a autora do livro em questão, Clarissa Pinkola Estés, que além de escritora, é psicóloga junguiana, vai buscar as relações entre essas histórias e a condição feminina mais primitiva, bem como as opressões das quais elas foram submetidas por tanto tempo. Dessa forma, ela reconta diversos mitos populares de tradição oral ou reformulados pelos irmãos Grimm que em algum momento teve contato, seja pesquisando sobre, seja ouvindo de outros povos, assim dissertando à luz da psicologia analítica.

Contos famosos como "O barba azul" são bem analisados e configuram-se, na obra, como consistentes argumentos especulativos a respeito da história de submissão da mulher. O ponto alto, entendo, é esse aprofundamento perspicaz das condições que fizeram com que mulheres fossem tratadas como foram. Não há carência alguma de argumentação e não se restringe ao previsível como  a ideia do machismo estrutural, por exemplo. Que existe, é claro, porém coexistindo com diversos outros problemas. 

A religião consiste num deles. A autora explora o domínio do cristianismo e o impacto que isso teve nos contos femininos. Que foram sendo moldados e transformados em histórias instrutivas sobre sexo, amor, casamento, parto; tudo em detrimento dos mitos que tratavam de mostrar os "mistérios antiquíssimos das mulheres". A mulher (selvagem) foi sendo expurgada por buscar sua liberdade. 

Estés é brilhante também, ao propor tal resgate, não inferindo uma mudança externa, a sociedade ou o macho. Ela busca reiterar a importância do autoconhecimento feminino partindo de si mesma. Reconhecendo a submissão que há para consigo própria também.

"Quando perdemos contato com a psique instintiva, vivemos num estado de destruição parcial, e as imagens e poderes que são naturais à mulher não têm condições de pleno desenvolvimento. Quando são cortados os vínculos de uma mulher com sua fonte de origem, ela fica esterilizada, e seus instintos e ciclos naturais são perdidos, em virtude de uma subordinação à cultura, ao intelecto ou ao ego - dela própria e de outros" - argumenta a autora logo na introdução. 

A civilização é ainda hoje, uma entidade que busca frear as investidas da mulher em direção a sua liberdade individual e não há muito auxílio nessa questão. A coletividade feminina é a força propulsora rumo a insubordinação. "Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força"

Contudo, a pessoa que vos escreve neste momento é homem. E como tal, me peguei refletindo sobre o meu papel nessa busca da mulher por sua natureza selvagem. Mas antes um adendo:

Dentro da psicologia há um debate sobre a cientificidade da psicologia analítica, bem como da psicanálise. Muitas vezes ambas são taxadas de pseudociência pela falta justamente de dados concretos a respeito de muitos conceitos, como o inconsciente, por exemplo. Mas independentemente disso, não se pode negligenciar e ignorar tudo que foi dito no livro; a linha teórica seguida pela autora não muda o fato de que, sim, a intuição feminina é real, é forte. 

Portanto, é dever de nós homens, captarmos as vicissitudes da mulher e não só entender como conviver com isso, mas proporcionar cada vez mais auxílio ao resgate do instinto feminino. Sendo companheiros de caça e cuidando do bando; sendo mais sensibilidade e menos força. O resgate ao "arquétipo do homem selvagem" também se faz necessário, principalmente em tempos de adoração ao falo, a virilidade. Afinal, estudos científicos já comprovaram que na pré-história homens e mulheres tinham o mesmo poder sobre o grupo e que elas dividiam as responsabilidades da caça e busca por alimentos, enquanto o macho guardava o lar e cuidava dos filhotes. 

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3 comentários

  1. Que resenha mais bem feita. Amo livros do gênero... E esse realmente eu não conhecia. A leitura parece ser bem leve né?

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    1. Obrigado, Jennifer! Leve é sim, mas pode ser um pouco difícil por conta de conceitos e tal. Eu como estudo psicologia tive mais facilidade para entendê-los. Mas é possível ler e entender apesar disso rs. Abraço!

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  2. A resenha ficou incrível! Mais um para minha lista de desejos hahah

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