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3.9.19

[Meus Devaneios] Crônica :: Das sensações de se observar o cotidiano


Eram três horas da tarde e eu estava na janela da cozinha do meu apartamento, observando ao redor. O clima, se ia chover ou não. 

Moro no terceiro andar, então consigo uma vista bem ampla de uns bons quilômetros à frente. Detectei que havia uma quietude desconfortável nas ruas; absolutamente em todos os lugares que meus sentidos pudessem captar. Praticamente não havia nada para se ouvir e não havia se quer "uma alma penada", como diria mamãe. 

Bem, era uma tarde rotineira de segunda feira útil. Havia, contudo, carros passando. Alguns procurando emprego, talvez, outros trabalhando, outros tantos desocupados procurando a esmo algum excitante divertimento escuso. O clima agradável, o sol ameno e a brisa fresca pousavam sutilmente sobre meu rosto como uma mariposa ao pousar sobre a pele. Uma calmaria aprazível que me paralisou por alguns duradouros segundos. 

De súbito, sons distintos me despertam e percebo que há uma criança chorando, uma mulher gritando e bem no limite do alcance de minha visão vejo uma ambulância em alta velocidade ignorando qualquer que seja o limite estabelecido naquela avenida. Meus sentidos me alertaram que coisas ruins estão acontecendo. Novamente, como se saísse de mim, me ponho a digredir:

Coisas ruins estão acontecendo. 

O será essa calmaria toda? Apenas um disfarce que acoberta o sofrimento humano? A criança chora porquê algo não está a satisfazendo de alguma forma; a mulher grita e perde a razão porquê não aguenta o choro daquela criatura; a velocidade com que aquela ambulância passou sugere que alguém está gravemente ferido. Por um momento tudo pareciam flores. As pessoas passavam, exercendo suas responsabilidades, cuidando de suas vidas, buscando suas próprias satisfações e objetivos. E nada parecia fora do lugar. Mas e dentro das casas e das ambulâncias?

As coisas não são como parecem ser.

Me vem à memória aquele icônico zoom dentro de uma orelha humana decepada, em Veludo Azul. O recurso é utilizado para estabelecer uma transição de momentos e não obstante, um puxão de tapete, revelando toda sujeira oculta em detrimento da morosidade dos jardins bem regados e verdejantes. Eu poderia crer numa existência monótona e pacata onde as pessoas extraíssem belíssimas poesias das banalidades de seu cotidiano insosso, como em Paterson – um filme magnífico, a propósito -, gostaria de crer que fôssemos todos Paterson. Mas de volta de minhas digressões e para dentro do meu smartphone, aciono o aplicativo de notícias, no momento em que leio em destaque:

"idosa é amarrada e morta dentro de casa em Americana".

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