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3.4.20

[Resenha] Fim :: Fernanda Torres

Fim 
Autor: Fernanda Torres
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 208
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O livro focaliza a história de um grupo de cinco amigos cariocas. Eles rememoram as passagens marcantes de suas vidas: festas, casamentos, separações, manias, inibições, arrependimentos. Álvaro vive sozinho, passa o tempo de médico em médico e não suporta a ex-mulher. Sílvio é um junkie que não larga os excessos de droga e sexo nem na velhice. Ribeiro é um rato de praia atlético que ganhou sobrevida sexual com o Viagra. Neto é o careta da turma, marido fiel até os últimos dias. E Ciro, o Don Juan invejado por todos — mas o primeiro a morrer, abatido por um câncer. São figuras muito diferentes, mas que partilham não apenas o fato de estar no extremo da vida, como também a limitação de horizontes.
Fim marca o início da carreira literária de Fernanda Torres como escritora, sem trocadilho. 

Publicado em 2014, a estreia não poderia ter sido melhor. Já no âmbito da literatura a atriz, roteirista, apresentadora [...] demonstra maturidade ao tratar do tema da vida com um olhar crítico e honesto da condição humana, facilitado pela sua vasta experiência em televisão, cinema e teatro.

Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Ciro e Neto foram companheiros de farra na década de 60 no movimento chamado contracultura, ou desbunde, no Rio de Janeiro. Com a manifestação da velhice, os cinco deparam-se recordando dos tempos de libertinagem e as escolhas feitas num passado que insiste em atormentar e se vê às voltas com os ressentimentos, resignações e a melancolia proveniente. O abatimento que pesa sobre as personagens é bem acompanhado do humor refinado que Fernanda consegue emplacar, não sem satirizar o machismo velado, ainda pouco debatido na época (quando estão a recordar o passado), enterrado aos poucos com cada membro da turma. Mesmo sendo os pilares da história, os amigos são sutilmente ridicularizados em suas atitudes na forma como as próprias recordações se apresentam: em seus egos inflados, arrogância e estupidez que, narrado habilmente, permite ao leitor boas doses de riso.
"Talvez o Ciro e o Sílvio fizessem isso habitualmente, mas eu não. Aquela foi a primeira e a última vez que estive perto de participar de uma suruba entre amigos. Toda amizade masculina carrega um quê de viadagem, Comer as mesmas mulheres não deixa de ser um jeito de se comer entre si."
Como havia dito, Fernanda carrega uma bagagem artística que a privilegia com uma visão realista da vida e suas intempéries, concebendo assim, personagens que tenham vidas próprias, tão reais quanto é palpável segurar o livro em mãos. É inconcebível pensar em personagens fictícios mesmo sabendo que o são, tamanho é o realismo de suas frustrações e arrependimentos. Qualquer um de nós, facilmente, poderíamos integrar a história de Fim
"Mas, naquela feste de bacana no Leme, que o Sílvio escolheu para nos dizer adeus, com a loirinha de joelhos, devota, incrédula com a boca metida na minha braguilha, eu lembrei, eu lembrei do que eu tinha entre as pernas."
O que surpreende, no entanto é a sua audácia de montar uma narrativa não linear com uma escrita que ora deleita-se em belos versos poéticos, ora escancara a podridão das personagens em orações cruas e sujas. Os capítulos que se alternam entre os cinco amigos idosos atropelam os padrões de tempo e estrutura narrativa exigindo foco e comprometimento do leitor. O método utilizado poderia ser enfadonho, haja vista a inexperiência de Fernanda com a criação literária. Mas o resultado é satisfatório. 

O título é Fim porque se passa no extremo finito do tempo, na iminência da morte. Mas o livro é sobre a infinitude da vida; a condição cíclica dos sentimentos. Escolhas do passado que refletem o presente em mágoas e sorrisos, erros e acertos, desejos e paixões e que perduram mesmo após o Fim 

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