15.10.14

[Meus Devaneios] Coisas da madrugada

Aqui é onde deixamos o fluxo fluir. Onde num momento espontâneo a consciência se afasta, a brisa suave inspira e o subconsciente se expõe. As palavras nascem fácil na mente, os dedos alucinados correm riscando o papel e antes que perceba se fez arte. Um devaneio que ganhou forma. Uma explosão de inspiração. Ou quem sabe um simples desabafo; de qualquer forma é aqui onde deixamos um pedaço de nós.
 

   Eu estava correndo, eu podia ouvir os passos deles atrás de mim, ouvir suas respirações
pesadas e suas risadas convencidas, meu peito se apertou, eles tinham certeza de que me 
pegariam, de que poderiam fazer o que quisessem comigo e de que depois me matariam 
deixando meu corpo em qualquer lugar para a vida selvagem terminar o serviço.

   Corri mais rápido, ergui o vestido e tentei em vão não bater nos galhos que insistiam em rasgar 
meu rosto, senti as lágrimas escorrerem e pensei em minha família...não! Eu não podia me dar 
ao luxo de pensar neles, isso me faria desmoronar, de repente fui jogada ao chão, senti o 
gosto da lama na boca e a dor me percorreu, mas foi quando eu senti mão passando pela minha 
cintura que o desespero tomou conta de mim e eu gritei com todas as minhas forças.
  
   Eu me sentei na cama, com o corpo suado e a respiração ofegante, olhei para minhas mão e 
as vi limpas, respirei fundo e repeti meu mantra sagrado "Foi somente um sonho", mas mesmo 
assim a sensação persistia, o cansaço estava ali, a dor nas costas, o sangue na boca, o grito 
reprimido, até mesmo as lágrimas derramadas. Suspirei e com todo o cuidado me levantei, 
calcei os chinelos e fui lavar o rosto, ao me olhar no espelho quase me perguntei quem era a 
estranha me encarando, Céus, minhas olheiras estavam cada dia piores e eu nem sabia por 
onde começar a descrever meus problemas, de um segundo para o outro o sono se foi e foi 
substituído pela vontade irritante de chorar e ver alguma comédia romântica, fui até a cozinha e 
vi no relógio que ainda eram duas e quinze da madrugada, fazia pouco mais de três horas que 
eu havia ido deitar. Droga, os intervalos estavam cada vez menores.
   Peguei meu cobertor reserva e me sentei no sofá, observando o movimento da rua, através do 
vidro da sacada, tudo estava tão parado, tão quieto, engraçado como o mundo não se abala 
com dramas cotidianos, a minha falta de sorte, a minha dor, o meu desespero e até mesmo a 
minha morte não abalarão está estrutura tão incrivelmente bem firmada, verdade seja dita, 
que em pilares instáveis e nem sempre feitos do melhor material, mas ainda assim fortemente 
sustentáveis.
   Me encolho dentro de mim e observo o primeiro dos pingos cair, logo muitos mais se juntam a 
ele e pela primeira vez em muitos anos vejo raios e trovões.
   Lá fora está caindo a maior das maiores chuvas que eu já vi, está chovendo tanto que eu 
penso que pode ser o novo dilúvio, por duas vezes fui até a janela do banheiro conferir se o 
ralo do quintal está funcionando, não quero que a casa da vovó seja inundada por aquela água 
suja, de repente as luzes se apagam e eu grito instintivamente, não gosto do escuro, ele me 
apavora, não saber o que pode estar logo a minha frente me amedronta de maneira estranha, 
me dá uma vontade louca de chorar e pedir socorro, mas a vovó não gosta de me ver triste, ela 
sempre se culpa por isso, então eu fico na pontinha dos pés e olho pela janelinha, para 
a parca claridade que ainda resta, vejo as águas virem em grandes torrentes para o ralo, as 
vejo batendo na parede como ondas batem na praia e eu sei que estou certa porque o papai 
me levou escondido na enseada mês passado enquanto a mamãe estava dormindo...
   Um clarão corta o céu, e por um momento me maravilho, mas logo vem o barulho que me faz 
gritar e pular, aquilo é horrível, machuca meus ouvidos, eu quero que pare, mas logo outros 
riscos brancos cortam o céus e muitos outros barulhos estrondosos os seguem, eu tampo 
meus ouvidos e chamo pela vovó.
   Ela aparece ao meu lado segurando duas velas, uma ela me entrega a outra apoia na pia que 
tem ali.
   -Está tudo bem querida?
   -Não vovó, eu quero saber porque o céu resolveu gritar, eu gosto da chuva, é ela que dá vida e 
deixa verdinha as plantinhas, mas não entendo porque ele tem que fazer tanto barulho...-
choraminguei.
   Ela sorriu e vi seus olhos se iluminarem daquele jeito que me diz que algo importante vai 
acontecer.
   -Você é uma menina muito inteligente por isso vou te contar um segredo...mas você tem que 
me prometer que o guardará.
   Eu assenti na mesma hora, momentaneamente esquecendo dos raios luminosos, aquilo era 
mais importante, a vovó me contaria um segredo!
   -Hoje o Papai do Céu está chorando por todos aqueles que estão perdidos.
   Senti minhas sobrancelhas se enrugarem em pura confusão, como assim o Papai do Céu 
estava chorando? Era para ele ser sempre feliz não? E quem que ele perdeu para o deixar tão 
triste a ponto de chorar? E como a vovó sabia que ele estava assim...eu ouvi novamente 
aquele barulho assustador e ao olhar para fora, vendo a chuva cair, entendi.
   -A senhora está me dizendo que o Papai lá de cima perdeu alguém que ele amava e agora 
está chorando tanto tanto que suas lágrimas estão nos afogando? E que esses barulhos 
terríveis são seus soluços?-perguntei olhando para o céu acima de mim.
   -Sim, isso mesmo, hoje Ele chora por aqueles que perdeu...
   -Mas chove outros dias, a senhora está dizendo que Ele fica triste tantas vezes assim?
   -Não, na maioria das vezes que chove é apenas a natureza.
   -Hmm, sei...
   Olhei para o céu agora totalmente escuro e livre de qualquer estrela, sem qualquer companhia 
lá em cima e pensei no quão triste deveria mesmo ser já estar sozinho e ainda sim perder 
alguém.
   -Não se preocupe Papai do Céu, eu estou aqui e por mais que eu não seja grande nem nada, 
posso ajudar o Senhor à sorrir novamente, estes sons são tristes demais para o Senhor tá?
   Sorri para mim mesma ao me lembrar disso, mas logo o sorriso morreu em meus lábios, eu 
queria que ela ainda estivesse aqui, para que eu pudesse correr para seus braços e ouvir suas 
sábia palavras, sentir suas mãos bagunçando meu cabelo ou ver seus olhos se enrugando ao 
sorrir.
   Respirei fundo, a chuva estava mais forte lá fora, batia no vidro fazendo muito barulho, levantei 
levando a coberta comigo e toquei a janela, olhei para o céu escuro e cercado de prédios altos e 
não vi nenhuma estrela, ingenuidade minha também querer ver alguma por aqui, como se 
fosse possível com toda essa poluição...
   Será que o Senhor está tão triste quanto eu? Não acho que seja possível nos comparar ou 
comparar o nosso sofrimento, na verdade acho que estou mais triste, desiludida e um tanto 
quanto pessimista, de uns tempos para cá isso tem se tornado algo recorrente sabe? Eu sei 
que o Senhor tem muitas pessoas para cuidar por aí e devo imaginar que muitos o 
decepcionam, mas a verdade é que eu tento meu melhor sempre, mesmo quando tudo parece 
sem sentido, e se eu sou capaz disso tenho certeza que muitos outros também são, então não 
se desespere tá? A minha promessa ainda está valendo, eu ainda estou aqui e o principal, 
obrigada, com tudo com tudo, eu prefiro estar aqui e viver intensamente alguns pouco 
momentos de felicidade pura e paz serena do que nunca ter vivido, acho que o Senhor devia 
pedir para colocar isso na mente das pessoas, diminuiria muito as toneladas de reclamações 
que o Senhor deve receber...
   -Amor?
   Me virei na direção da voz que soava preocupada e o vi, ele estava só com a calça do moletom 
e seu cabelo era uma bagunça negra que ia em todas as direções, ele parecia preocupado e 
um tanto cansado.
   -Desculpe te acordar...
   -Foi a chuva linda, eu acordei e fui te abraçar e bem não te encontrei, tá tudo bem?
   Se eu falasse sim e afirmasse várias vezes ele iria ir dormir novamente e eu sabia que ele 
precisava disso, na verdade ele necessitava disso, mas assim eu continuaria sozinha aqui, 
continuaria triste e provavelmente ficaria mais apagada do que já estou, se eu pedisse ele 
ficaria comigo, me abraçaria e depois de um tempo eu estaria melhor...mas eu não posso fazer 
isso.
   Olhei para cima, para lhe dizer para voltar a dormir e o encontrei a poucos centímetros de mim 
me analisando.
   -O que aconteceu? Por que você está triste?
   -E...eu..eu estou bem, só perdi o sono...
   -Para com isso linda, você está com aquela cara "Eu preciso de ajuda mas não vou te envolver 
nisso"
   E antes que eu pudesse protestar e lhe dizer que isso era um absurdo ele estava me 
abraçando, colocando minha cabeça em seu peito e mexendo em meus cabelos, no mesmo 
instante senti meus braços o envolverem e o puxarem para mim, Céus como eu amava esse 
homem!
   -Eu sei que você acha que pode resolver as coisas sozinha e que odeia sentir como se 
estivesse de alguma forma me prejudicando, mas coloca isso de uma vez por todas na sua 
cabeça, não importa quando, onde ou porque, se você sentir que precisa de algo, desabafar ou 
fazer alguma coisa me avise para que eu possa estar junto, "Na saúde e na doença...na alegria 
e na tristeza...", eu te amo garota e você é minha prioridade. Sempre.
   O apertei ainda mais, eu sentia a aliança pesada em meu dedo e esse pequenino peso me 
acalmou um pouco.
   -Você é louco sabia?
   -Aham, sou louco por você baby.
   Olhei para ele e assim que um sorriso brotou em seus lábios caímos na gargalhada, riamos 
tanto que quando percebi estava limpando as lágrimas.
   Quando nos acalmamos ele se sentou no tapete felpudo que tínhamos na sala e me fez deitar 
no seu colo, ligou a TV e parou de mudar de canal quando viu que estava passando Namoro 
ou liberdade.
   -Esse filme é hilário.
   -O casamento do ano é mais querido.
   -Você é a geek aqui, sua palavra é lei!
   -Engraçadinho
   -Você está sorrindo é isso que importa.
   Na mesma hora senti meu peito inflar de amor e a escuridão que estava me rondando até 
agora a pouco ser posta para dormir, me sentei e o observei, vi a forma com sua boca estava 
sempre sorrindo, mesmo quando ele estava nervoso, seus olhos claros como o céu, a barba 
por fazer e de repente ele estava me olhando de soslaio.
   -Eu sei que minha beleza é cativante linda, mas acho um desperdício de tempo...
   E eu o beijei, assim que nossos lábios se tocaram suas mão me envolveram e me puxaram 
para si, uma puxou meu cabelo, enquanto a outra gentilmente segurava minha cintura, toquei 
seu rosto enquanto nossas bocas se moviam delicadamente, contornei suas orelhas e mexi em 
seu farto cabelo, e quando nosso fôlego acabou e nossas testa se tocaram, eu sorri 
verdadeiramente feliz pela primeira vez naquele dia.
   É por momentos assim, por pessoas assim que a vida vale a pena!
   -Eu te amo muito muito mesmo okay?
   -Okay linda, eu também te amo muito muito mesmo, mas eu tenho uma coisa para te falar.
   -É?
   -Aham.
   -E o que seria?
   -Não se esqueça de comprar a tinta azul, seu cabelo está desbotando...
   Ainda o segurando me afastei um pouco, olhando seu rosto, me perguntando se ele estava 
falando sério, nem percebi quando ele pegou uma madeixa azul e fez um bigode falso em si 
mesmo.
   Por um momento o olhei incrédula, mas então sorri, o mundo podia parecer frio e triste, mas 
naquele momento, com ele, eu me sentia a pessoa mais feliz e amada do planeta. 



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